RAGO, Elisabeth. "Amor, sexo e anarquia" [Espanha, 1936]
Article mis en ligne le 3 de Novembro de 2005
dernière modification le 27 de Abril de 2015

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Letralivre, n° 33, ano 06 - 2002.

"Es que no es digna la satisfacción de los instintos sexuales?":

Em janeiro de 1936, a revista anarquista Estudios, publicada
mensalmente em Valência, na Espanha, inclui entre os inúmeros artigos
que discutem questões de saúde e da moral, uma seção
denominada "Consultório Psicossexual", aberta aos leitores. Através
de cartas dirigidas ao Dr. Felix Martí Ibáñez, especialista em
Sexologia, são apresentadas problemas sexuais, sentimentais e afetivo
de várias ordens, aos quais o médico procura responder, tentando
identificá-los a partir de sua especialidade.

O diálogo aberto entre o médico libertário e os seus leitores na
revista é das muitas frentes em que ele se engaja, ao pôr em prática
aquilo que considera sua tarefa principal: a reforma eugênica sexual,
na Espanha revolucionária. Segundo ele e seus companheiros
libertários, muitos dos quais também médicos, tratava-se de tirar do
país o atraso secular em que se encontrava, criando as condições para
a transformação dos hábitos da população, para a formação de uma
juventude aberta para a vida, livre dos preconceitos e das repressões
impostas pelo conservadorismo burguês e pelo obscurantismo religioso.

Focalizo os principais temas que emergem nas trocas e diálogos
ocorridos neste espaço da revista, assim como no conjunto dos artigos
aí publicados, entendendo que, ao abordar questões referentes à
sexualidade, ao corpo e à moralidade, eles revelam a preocupação dos
anarquistas em construir uma nova moral sexual e em transformar as
relações de gênero no sentido da emancipação sexual tanto da mulher,
quanto do homem. Para além de suas interpretações acerca dos
problemas sexuais e amorosos, os libertários expõem suas práticas e
experiências nessa área, constituídas num período, bastante denso de
nossa história, isto é, durante o período da Revolução Espanhola.

Temos tido vários registros dos acontecimentos políticos, econômicos
e sociais do período, já que se trata de um dos momentos mais
interessantes do século 20, em se considerando as criações
revolucionárias em múltiplos campos da vida humana, como as
coletivizações das fábricas e dos campos e as inovações libertárias
na educação e na área da saúde, em várias regiões da Espanha, entre
1936-1939.

Mais recentemente, alguns trabalhos ligados à área de estudos
feministas, focalizam a experiência das mulheres revolucionárias, sua
participação na esfera pública e as questões da moralidade para os
anarquistas, durante o processo revolucionário. Martha Ackeslberg -
Free Womem of Spain de 1991 (Indiana University Press) e Mary Nash
Defying Male Civilization: Womem in the Spanish Civil War,
publicado em 1995 (Ardem Press) analisam a atuação das mulheres
libertárias durante a Guerra Civil Espanhola, procurando perceber em
que medida sua presença na esfera pública alterou de fato a dominação
masculina, ou abalou os conceitos e valores tradicionais a respeito
da divisão sexual dos papéis na sociedade. Mesmo que concluam pelo
fracasso das propostas libertárias, esses livros mostram a grande
desestabilização causada pela atuação dos anarquistas naquele período
de profunda esperança, em que se anunciava a possibilidade de
reorganização da sociedade em bases mais solidárias e criativas.

O objetivo maior deste trabalho é destacar o projeto libertário de
construção de uma nova moral sexual, as formas de problematização dos
temas apresentados e as respostas sugeridas, resgatando um debate
histórico e experiências inovadoras que, como é de se supor,
encontraram profundas dificuldades para serem implementadas, numa
Espanha profundamente conservadora e religiosa. Ao mesmo tempo, os
problemas levantados mostram a permanência não apenas das imagens e
metáforas a partir das quais se constrói a experiência sexual, mas
ainda a reincidência das dificuldades nesta área, encobertas por um
profundo silêncio que apenas começa a ser quebrado em nosso tempo.

A reforma moral dos libertários

A Revolução Espanhola (1936-39) foi o momento privilegiado para que
os anarquistas pusessem em prática várias de suas concepções a
respeito da construção de novas formas de vida social. Certamente,
desde sempre, eles procuraram implementar suas propostas de
organização social, questionando o poder em todas as dimensões da
vida em sociedade, defendendo a autogestão nas fábricas e no campo,
construindo as "escolas modernas", praticando o amor livre, recusando
o casamento civil e religioso, recusando a representação política, em
nome da autonomia pessoal. As discussões em torno do amor e da
sexualidade ganharam um maior espaço entre suas preocupações, já que
seriam fundamentais para a construção de uma nova moral e de um novo
homem, livre de preconceitos, dos tabus, das crenças obsoletas e das
repressões sexuais.

Vários temas compõem o repertório das discussões que a revista
apresenta mensalmente, entre 1934-36. "Nova Moral Sexual", "A
Educação Sexual. A Puberdade", "O Instinto Sexual", "A Mulher e a
Nova Moral", "O Pudor na Bíblia", "Prostitutas!", "Juventude e
Liberdade", "O Culto Fálico na Roma Antiga", "Em torno ao problema
eugênico no Aborto", "Uma Utopia Sexual" são alguns dos sugestivos
títulos dos artigos publicados, na grande maioria assinados por
homens e por médicos. Uma das poucas escritoras da revista, aliás, é
a libertária brasileira Maria Lacerda de Moura, já bastante conhecida
em nossos meios.

Esses textos apontam para a construção da sociedade libertária, onde
novas formas de amar, de viver a sexualidade, de se relacionar com o
corpo, de conhecer o mundo e respeitar o próximo seriam possíveis.
Para tanto seria necessário criar condições de esclarecimento sexual
da população, através de cursos e programas de educação sexual, assim
como da implantação de postos, estabelecimentos e outras instituições
de atendimento prático.

Amor livre e plural, divórcio, maternidade consciente, aborto, fim da
prostituição e criação de estabelecimentos de higiene para fins
sexuais são algumas das propostas apresentadas pelos anarquistas,
nessa direção.

Sugiro acompanhar por um momento alguns dos temas que emergem nas
trocas de correspondência entre o Dr. Ibáñez e seus leitores, em
geral, homens e mulheres de várias idades pertencentes ao mundo do
trabalho e identificados ao anarquismo. A seção é aberta às cartas
dos leitores em janeiro de 1936, afirmando-se como um espaço para
consulta de problemas íntimos psicossexuais com o Dr. Ibáñez. A
leitura das cartas enviadas ao longo do ano revela uma forte
preocupação com o comportamento sexual das mulheres, seja na
perspectiva dos companheiros e esposos que as escrevem, seja na das
próprias mulheres. Contudo, isso não significa que os únicos temas
abordados refiram-se à mulher, numa atividade explícita de indicar
aos homens o caminho para introduzi-la à vida sexual, ou em outras
palavras, para ensiná-la a ajustar-se às necessidades masculinas,
como vemos nos manuais de "higiene do amor", publicados em vários
países, no período. Trata-se de uma tentativa de promover a interação
entre os casais, ou então, de ajudar o indivíduo a encontrar-se e
resolver suas dificuldades a partir de conhecimentos bastante
especializados na área da psicanálise e da sexologia, de Freud e de
Havellock Ellis.

Como afirma o Dr. Ibáñez, o consultório é uma espécie de santuário
que visa trazer alívio não mais às "dores espirituais", mas às "dores
sexuais".

Um dos temas mais freqüentes trazidos nas cartas refere-se à questão
da incapacidade de amar das mulheres, ou da frigidez feminina. Assim,
a primeira carta apresentada é escrita por um homem de 42 anos,
casado há oito com uma mulher cinco anos mais jovem, lamentando seu
fracasso em faze-lo conseguir "o êxtase amoroso no ato sexual",
dificuldade que se acentua após o nascimento do segundo filho.

As respostas do médico mostram as concepções médicas sobre o corpo e
as sexualidade da mulher, no período. Destinam-se a trabalhadores(as)
identificados com o anarquismo, o que se deduz pela maneira de
apresentação dos leitores como "companheiros"; aliás, o próprio
médico se coloca como um anarquista revolucionário comprometido com a
Revolução em curso. Discutindo o problema da frigidez feminina, o Dr.
Ibáñez entende que há as causas endógenas e as exógenas. Estas
remetem às dificuldades masculinas, como ejaculação precoce, ou
impotência sexual relativa, ou ainda o uso de uma técnica sexual
inadequada, que levaria à insatisfação sexual da mulher. Aconselha o
doutor:

"Examine objetivamente sua própria sexualidade, não apenas em sua constituição, mas em sua técnica",

já que, "uma preparação amatória curta da mulher origina nela uma
sobrecarga em sua sensibilidade", que não sendo satisfatória resulta
numa grande frustração. Entre as causas endógenas da frigidez
feminina, destaca as alterações endócrinas e sugere a consulta a um
especialista. Aí afirma que esta frigidez depois do segundo filho é
muito comum nas mulheres e tenta explicar:

"a influência anestésica sobre a erótica feminina do nascimento do
filho" pelo traumatismo do parto; enquanto defesa psíquica pelo medo da gravidez; pelo deslocamento do potencial efetivo da mãe para o filho.

Em outra carta revelando a mesma dificuldade em relação ao orgasmo
feminino, o médico sugere que o homem considere o psiquismo feminino.
As fantasias criadas desde a adolescência em relação ao ato sexual e
ao parceiro provocam um choque no embate com a realidade; portanto ,
propõe a reversão do quadro apresentado com a ajuda de um psicólogo
para que a mulher reverta "as imagens eróticas indesejáveis e as substitua pelas normais, na construção de uma sensibilidade amorosa normal".

Esboçando um histórico da "evolução erótica da mulher", recorta três
momentos fundamentais: uma fase de auto-erotismo, em que a menina se
ama e em que passa muitas horas se adorando no espelho, ou mimando a
boneca em que se projeta a si mesma, numa atitude totalmente
narcisista. A segunda fase, a da "projeção parental da sexualidade",
marcada pelos complexos de Édipo e de Eletra, é um momento
heteroerótico, em que a jovem passa a se apaixonar também pelos
outros. Já a terceira fase, a da "especificidade erótica", o objeto
de desejo desloca-se para homens específicos. Finalmente, a mulher
chega ao casamento e aí emergem os problemas.

É interessante observar a preocupação feminista do médico que, ao
contrário do pensamento médico conservador do período, entende que a
mulher deve ter direito ao prazer sexual, tema recorrente na
literatura anarquista desde o século anterior. Por isso, prega ele
aos seus leitores do sexo masculino:

"Se queremos ser homens livres, temos de desejar a liberdade sexual para a mulher em suas experiências amorosas; se desejamos ser revolucionários temos de começar por revolucionar nosso espírito dominando nossos egoísmos." ("Lãs que no Saben Amar y las que no Puedem Amar", fev. 1936, n° 150).

Outro tema de discussão remete à menopausa. Respondendo ao leitor
aflito diante da ausência de orgasmo da esposa e diante de sua
entrada na menopausa aos 40 anos, o Dr. Ibáñez informa que assim

"como sucede com sua esposa, não é um fato infrequente em nosso país."

A menopausa é identificada pelo médico como "o ocaso da sexualidade
feminina", momento em que a mulher deixa de ter desejo e capacidade
sexuais, que no homem não terão data marcada para acabar. A
menopausa, isto é, o momento em que a mulher deixa de ter condições
de engravidar, é confundida com um período em que morre para a vida
sexual, no imaginário médico do período.

Analisando cautelosamente o caso exposto na carta pelo marido
angustiado, o médico observa que com um "horizonte sexual" tão
triste, pois ela teve cinco partos e nenhum "êxtase" em sua
experiência sexual, ela só poderia querer encurtar o "indesejável
caminho erótico", e chegar ao "crepúsculo final de uma sexualidade
dolorida e insatisfeita". Daí a menopausa precoce.

Também dos problemas sexuais masculinos se ocupa o médico anarquista,
a exemplo da impotência. De um lado, critica o esposo que, num
segundo casamento, como diz em carta, só consegue ter prazer ao
projetar a imagem da primeira esposa, já falecida, sobre a segunda,
durante a cópula. A este comportamento denomina de "adultério
espiritual" e recomenda uma maior concentração nas qualidades da
esposa atual para um desempenho mais positivo.

Mas, a análise se torna mais interessante quando ele discute
o "homossexualismo psicológico", a partir de outro caso exposto em
carta. Trata-se de um trabalhador que, passando a freqüentar a casa
do amigo, estabelece uma relação íntima com sua esposa, de certo
modo, com sua própria conivência, já que cada vez mais o marido deixa
espaço livre para o amigo. Ao final, ele deixa sua esposa, enquanto o
outro busca explicação para o caso. Para o médico, trata-se de um
caso de "homossexualismo psicológico", propiciado pelo adultério, já
que estando vinculado à esposa, o marido consegue atrair outro homem
para dentro de sua casa e indireta ou simbolicamente relaciona-se com
este. Finalmente, algumas cartas colocam o problema de companheiros
fiéis, mas muito interessados pelas figuras femininas nas ocasiões
sociais. Ao que o Dr. Ibáñez define como erotomania, comportamento
doentio decorrente de um forte sentimento de inferioridade por parte
do homem.

"Negócios do aborto"

O tema da legalização do aborto se destaca como um dos mais
importantes na reforma eugênica promovida pela Revolução na figura do
Dr. Ibáñez, diretor geral do Sanidad e Asistencia Social da
Generalidad da Catalunha, ao lado de Federica Montseny, que se torna
Ministra da Saúde durante o governo de Largo Caballero. Em dezembro
de 1936, é estabelecido um decreto que permite a interrupção da
gravidez,

"seja qual for a causa que o motive, dando um golpe assim ao curandeirismo assassino e dotando o proletariado de um modo científico e eficaz de controlar sua natalidade, sem temor aos riscos que ele poderia trazer..." (jan. 1937, n° 160)

Demonstrando o avanço da medida, já conhecida na Suíça, desde 1916,
na Checoslováquia, no Japão e na Rússia, durante os anos 20, o médico
anuncia sua adoção na Catalunha, enquanto uma das principais
conquistas revolucionárias para as mulheres. Condenando as medidas
repressivas do aborto que levavam ao infanticídio e à morte da mulher
proletária, afirma que deste modo

"o aborto salta da clandestinidade e incompetência em que foi verificado até hoje, e adquire uma alta categoria biológica e social, ao converter-se em instrumento eugênico ao servi;co do proletariado." (n° 160)

Defendendo a importância da "reforma radical", o doutor mostra que
ela permitirá paradoxalmente diminuir a taxa de abortos, já que ao
lado dos centros destinados a ele, funcionarão outros destinados à
fusão popular de recursos anticoncepcionais,

"pois nosso ideal eugênico é que a mulher possua uma sólida cultura eugênica, que lhe permita evitar o aborto e não recorrer a ele senão como último recurso (...)".

Além disso, a reforma eugênica do aborto, tirando-o das mãos dos
charlatães e traficantes de remédios, permitirá reduzir a mortalidade
feminina por esta causa. Nesse sentido, ele entende que o projeto
valoriza a maternidade e consagra o direito da mulher ao seu próprio
corpo:

"Saudemos todos, irmãs e irmãos proletários, a reforma eugênica do aborto desde a Consejería de Sanidad y Asistencia Social (...). Liberadas sexualmente, as mulheres proletárias serão no futuro as criadoras dessa nova geração de trabalhadores, prenúncios românticos da nova era."

Ao fazer um balanço das criações revolucionárias da Consejería de
Sanidad y Asistencia Social, na Catalunha, nos meses em que a CNT
participa do Consejo de Gobierno, e elogiando fortemente a atuação de
Federica Montseny, o médico destaca: a descentralização da Sanidad e
a municipalização dos médicos; a constituição de conselhos locais e
da comarca, a criação de hospitais intermunicipais;
a "socialterapia", isto é, a reeducação dos doentes, asilados e
crianças em centros especiais:

"nossos estabelecimentos para crianças substituíram o regime carcerário de antes pela vida livre em regime aberto, com o que o sol que irrompe abundantemente nos estabelecimentos simboliza também a luz que penetra nas velhas normas."

A defesa da "maternidade consciente" a exemplo do que ocorre na
Maternidad de las Corts, caminho para os centros da natalidade é
outro dos pontos destacados, assim como a instauração
dos "liberatórios da prostituição", casas de recolhimento das
mulheres. Vale notar a crítica às teorias "pseudocientíficas" do Dr.
Lombroso. Finalmente, o médico defende a criação de consultórios
psicossexuais de orientação juvenil e do Instituto de Ciências
Sexuais da Catalunha, onde seriam realizados estudos e pesquisas
sobre sexualidade.

Finalmente, os anarquistas se ocuparam da criação de espaços do
prazer sexual. É o que aparece no artigo "Uma Utopia Sexual",
publicado em janeiro de 1937.

"Uma Utopia Sexual"

O autor, Mariano Gallardo, inicia o artigo perguntando-se por que se
critica a busca de prazer sexual:

"Es que no es digna la satisfacción de los instintos sexuales?"

Critica a repressão sexual e afirma suas intenções:

"Precisamente o que aspiro com meus estudos sexuais é a criação de uma ética sexual nova e livre, que torne desnecessária a prostituição."

Para acabar com ela, propõe a criação de estabelecimentos sexuais
higiênicos, onde homens e mulheres acorreriam quando necessitados.
Ele imagina o "motel" de seus sonhos:

"Nesses estabelecimentos não haveria como população permanente senão o pessoal médico e os encarregados do estabelecimento (...)."

O pessoal que o freqüentaria seria "movediço e transeunte", formado
por indivíduos de ambos os sexos,

"sãos e em idade de razão e de expansão voluptuosa."

Os médicos realizariam exames de prevenção e facilitariam o acesso
aos métodos contraceptivos. Haveria camas nos estabelecimentos e
outros objetos considerados necessários para o fim a que se destinam.
Finalmente, se viessem além de casais, homens e mulheres
desacompanhados, formar-se-iam dentro do estabelecimento,

"casais de amantes para um momento. (...) A mulher ou o homem que não encontrassem ninguém de seu gosto, voltariam outro dia (...)"

Concluindo, Gallardo defende-se ante a possível crítica ao projeto,
observando estar comprovado que a necessidade sexual nem sempre está
unida ao amor e que a juventude não pode receber educação sexual sem
os meios para usufruí-la. Finalizando: entre fracassos e vitórias...

Os anarquistas foram vítimas de muitas críticas, sobretudo por parte
dos historiadores marxistas que, ao abrirem as portas para sua
entrada na memória histórica, condenaram-nos aos porões por
incapacidade política, romantismo ingênuo e esperança utópica, vale
dizer, impossível. Ao mesmo tempo, num momento marcado por esta
historiografia, para a qual os temas da sexualidade, do corpo, da
mulher não tinham a mesma importância que os temas políticos e
econômicos, o projeto de reforma moral e sexual dos libertários
certamente passava bastante despercebido ou desvalorizado enquanto
puro romantismo. Certamente, cada sociedade escolhe o passado que
quer celebrar e a partir de que registros pretende inventá-lo.

Contudo, algumas observações podem nos levar a refletir um pouco mais
de profundidade sobre o projeto social e moral libertário. Ao colocar-
se como um pensamento "de fora" e excêntrico, o anarquismo desloca o
foco de investimento estratégico do campo da política institucional
para o da moral, afirmando que a luta se volta contra todas as formas
de poder constitutivas das relações sociais e sexuais.

Para Malatesta, aliás, o anarquismo resulta da vontade pessoal e
coletiva, de um profundo amor pelo próximo dificilmente captado pelas
teorias científicas. Criticando violentamente as instituições, o
anarquismo dissolve os enquadramentos identitários que normatizam e
sedentarizam. A liberdade é, assim, ponto capital nesse pensamento
que rejeita a separação entre meios e fins. Nesse sentido, entende
que o amor e desejo escapam totalmente as codificações morais
instituídas pela sociedade burguesa desde o século 19. é claro que,
em se tratando de uma moral construída sobretudo nos meios operários,
os anarquistas enfrentaram enormes críticas e dificuldades e, aliás,
eles mesmos as enfrentaram com lucidez de sempre. Assim, discutindo o
amor livre, "tema delicado e difícil", uma das principais figuras do
anarquismo espanhol, Federica Montseny se pergunta em "A Mulher,
Problema do Homem" artigo publicado na Revista Blanca, em 1932:

"quem, até agora, colocou em prática o verdadeiro amor livre?"

que não seja apenas deixar de casar-se no religioso e no civil e
mesmo sabendo que

"o matrimônio é o túmulo do amor."

A relação entre os gêneros

"continua sendo a união subordinada de uma mulher a um homem, união mais penosa, mais coatora da liberdade feminina, porque ao prescindir da aprovação social, a deixa, na debilidade de sua desorientação e do equívoco moral em que ambas as morais a colocam, mais à mercê do carão" (pág.10)

O esforço para libertar-se do laço matrimonial

"a oferece temerosa e indefesa ao capricho masculino e ante a animosidade familiar e social."

Sem falar

"desse outro amor livre, que consiste em provar mulheres, abandonando- as ao cabo de dois meses com a insolência triunfante de sedutor.";

ou de uma forma disfarçada de prostituição que praticam algumas
mulheres, diz ela. E qual será o futuro do amor, pergunta, deixando
claro sua recusa do "comunismo amoroso", preconizado por Armand na
França. Também acha difícil responder, pois em cada indivíduo,

"o amor tem uma manifestação, uma variedade e um conceito.

"Montseny entende que a modernização da sociedade liberou a mulher do
domínio do patriarca para coloca-las nas fábricas e oficinas sob o
domínio do patrão. Sem modelos, passou-se da mulher francesa para o
tipo americano, em que

"o cabelo curto iguala as cabeças."

Desanimada, diz que não vê solução para o problema do dois sexos no
mundo em que vive, embora aponte

"o individualizamento do amor?"

como saída. E este exige uma nova mulher, mas também um novo homem.
Os anarquistas preparam o amor livre, criticando a prisão
representada pelo casamento monogâmico indissolúvel; defenderam o
divórcio; procuraram resolver o problema da prostituição
criando "liberatórios da prostituição", casas de recolhimento para as
mulheres desamparadas. Entenderam que deveria haver espaços especiais
para o sexo livre, entendido enquanto uma necessidade humana;
legalizaram o aborto, afirmando deste modo poder valorizar a
maternidade e deixa com que a mulher decidisse da livre opção pela
gravidez.

Muitas décadas depois, salta à vista o pioneirismo de suas propostas,
muitas das quais foram incorporadas e são hoje amplamente praticadas
em nossa sociedade, sobretudo nos setores sociais voltados à critica
do autoritarismo em suas práticas cotidianas. Outros pontos, a
exemplo do aborto e da prostituição, ainda são feridas abertas em
nosso mundo e as respostas oferecidas hoje ainda estão muito aquém do
patamar estabelecido por aqueles revolucionários nos anos 20 e 30. De
qualquer modo, as possibilidades históricas estão dadas e se tornam
cada vez mais conhecidas, permitindo ampliar o repertório de
respostas possíveis que nossa sociedade quer conhecer. Resta saber
que mundo, afinal, queremos.


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